quarta-feira, 13 de maio de 2015

O Barco Afundado Versão do Pescador...

Foi numa noite de frente fria, dessas que vêm do sul.

O vento forte deixou o mar agitado e o piloto do barco, sem tempo para atravessar a barra, acabou atracando na Ilha. 

Foi ali no Adriana, bem perto da prefeitura.


Acontece que quando ele estava encostando na praia, tomou uma onda em cima da embarcação e acabou indo à pique (isso quer dizer que ele afundou)!


Como era um barco camaroeiro, o porão estava carregado de camarão branco.

Era muito camarão mesmo. Camarão que não acabava mais.

Eu comprei camarão deles... E eles venderam por um preço bem barato naquela época.

Fizeram isso pra não perder a carga.


Enquanto ajudava, acabei conhecendo o mestre e os marujos. Eles eram de Santa Catarina.

Trabalharam a noite toda pra tirar todo o camarão do porão.

E o mar não dava trégua...


O mar foi batendo, batendo e batendo na lateral da embarcação... E o barco foi afundando...

Não deu tempo de tirar ele de lá. 
Tentaram de várias formas: trator, guincho... Mas nada deu certo!


Só tiveram tempo de tirar o motor e o resto ficou à mercê do mar.

E até hoje ele tá lá.
Afundou tanto que só aparece uma parte dele pra fora da areia... E esta história pra contar!


Foi assim que aconteceu... 

Tem dúvida???

É verdade, eu tava lá!!!


E quem viu e contou a história do Barco Afundado do Adriana, foi meu amigo Salé, pescador e morador de Iguape.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O monstro do Ridiuna...


Quando eu era, ainda, um molecote cortei palmito por um bom tempo. Eu e meu primo 'passava' semanas no mato...

O lugar onde nós 'cortava' era bem longe de Iguape, umas oito horas de barco sentido Rio Una, ou Ridiuna que era como todos nós 'conhecia'.


Lá, nós 'ficava' acampado em um pequeno barraco. Desse barraco até o lugar de 'cortá' palmito dava umas duas horas de remo em uma canoa.

Todo dia nós 'passava' pelo mesmo lugar. Até então eu não sabia de nada...


Até que um belo dia vi quatro cruzes, uma do lado da outra, no barranco, no meio do nada. Então perguntei pro meu primo o que tinha acontecido ali naquele lugar.

Ele me perguntou: "Quer saber mesmo?"

E eu respondi: "Claro que sim!"


Foi aí que ele me contou que naquele lugar passou um barco de alumínio, era de turista, e eles 'tava'  pescando ali por perto. Tinha cinco tripulantes no barco e, de repente, o barco bateu em alguma coisa no meio do rio.

Acontece que naquele lugar não tinha nada pro barco bater. Nem banco de areia tinha!


Quando os tripulantes foram ver o que tinha acontecido pro barco parar apareceu algo muito assombroso 'praqueles' coitados...

A coisa apareceu de repente, muito rápido!

Era um bicho... Um monstro!


Quando o monstro atacou o barco, um dos tripulantes conseguiu fugir e se salvar. Ele disse que o que tinha atacado eles era nada mais, nada menos que um jacaré enorme ou crocodilo ou urura, como 'dizia' os antigos.

Ele não sabia direito que bicho que era, mas era grande mesmo... Enorme!


Depois disso procuraram e procuraram, mas não acharam nenhum corpo que fosse, o bicho comeu todos eles...

Mas, também, não encontraram o bicho... Rápido ele veio e rápido ele se foi.

E em lembrança aos mortos foi colocada aqueles cruzes lá no barranco. Em respeito aos falecidos.


Quando eu percebi nós 'estava' bem em cima do lugar do acontecido... Vixi eu gelei na hora.

Mas meu primo era muito experiente com estes 'assunto' de mato. Isso me deu um alívio!

Continuamos a passar por ali por muito tempo e graças a Deus nunca vi nada. Mas toda vez eu me lembrava da história e do danado do bicho comedor de gente...


E essa história é verdade 'verdadera', tanto que minha mãe que tem oitenta anos, disse que aquele bicho gigante morava ali mesmo, ela ouviu várias histórias de gente que cruzou com o bicho que assombrava as águas doces do Ridiuna.


Quem me contou esta história foi o Rogério, antigo pescador de Iguape.


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

O segredo da dona Maria

Esta história aconteceu há uns tempo atrais...

Minha vizinha dona Maria, que não era pescadora nem nada, todo dia vortava do rio com cinco ou seis piaba.

Era todo dia, todo dia...

Ela ia pro rio depois do armoço e vortava cas mão cheia de piaba.


Eu não conseguia entendê como ela tinha tanta sorte.

Porque todo finarzinho de tarde eu ia pescá co meu fio e nós não trazia nada!


E no outro dia era a mesma coisa... Lá ia a dona Maria pru rio e vortava cas piaba pra casa.

Aquela sorte dela já tava me dano raiva!

Porque, todo dia, eu co meu fio ia no finarzinho da tarde e vortava cas mão abanando...


E eu que num sô home de dexá as coisa passá, resorvi descobri que segredo era esse!

Então um dia eu segui a dona Maria.
Ela terminava de armoçá e ia pro rio lavá loça e, enquanto lavava a loça ela jogava o anzol...

E pegava um atrais do outro!


Como eu só tinha espiado de longe, num deu pra descobri o segredo. 
Mas eu vi que era verdade, era ela mesma que pescava as danada das piaba.


No outro dia eu resorvi fazê diferente: na hora qui ela foi lavá as loça eu fui cum ela.

E foi aí que eu peguei a malícia!


Na verdade, quando ela lavava a loça ela jogava os resto de arroiz no rio, aí as piaba que não são boba nem nada, se reunia tudo por ali!


E aí ficava fácil!

Ela jogava o anzol no meio das piaba toda e, por isso, pescava uma atrais da outra...


Ah a dona Maria...

Aquela é que era pescadora esperta!

Deu nó em tudo nóis... hehehehehe


E quem me contou esta história foi o Sr. José, pescador e caiçara aqui na Ilha

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Monstro no Cerco

Ser pescador também tem seus perigos!

É verdade. Tem que estar sempre atento senão...


Eu já vi de tudo que você pode imaginar dentro de um cerco.

Já vi cobra d´água, lontra, peixinho e peixão. 
Mas a coisa mais perigosa que eu já achei dentro do cerco foi um jacaré!


É verdade!

Foi assim que aconteceu...

Saí de manhãzinha pra passar a rede e ver o que tinha dentro do cerco. Tava lá distraído, pensando na vida quando senti um peso na rede e alguma coisa se agitando pra valer.


Pensei que fosse uma tainha bem grandona, daquelas que salva o mês da gente. 
Como o bicho tava agitado, pulei lá dentro pra pegar a danada com as próprias mãos...


Foi aí que tomei um susto daqueles!

Não tinha tainha nenhuma... Era um baita dum jacaré que tava lá dentro.
O bicho devia ter um metro e meio de comprimento.

Mas não amarelei não!


Passei os braços por baixo do jacaré e joguei o danado pra fora do cerco!

Ele voou lá pra fora que nem viu o que acertou ele... Saiu nadando rápido e sumiu dali.

Esse nunca mais volta.


E há quem diga que não tem jacaré por estas bandas. Tem de monte!

Cê tá dando risada?
É verdade!

Pode perguntar pro meu pai... Ele viu tudo.

Nékié pai?


Quem me contou isso foi o Alex, pescador e contador de histórias lá de Iguape

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O mistério no telhado

Esta história aconteceu em Iguape e o pescador que me contou jura que é verdade verdadeira!


A caminho da Toca do Bugio, em Iguape, tem uma chácara que se chama Jejava.
Ali, como em todo lugar, mora um casal de caseiros.

E é a própria caseira quem conta, tim-tim por tim-tim um causo muito sinistro que aconteceu por lá...


Ela conta que, em uma certa época do ano, no mesmo mês, na mesma lua, passava alguma coisa por cima da casa dela.

Ninguém sabia o que era, ninguém nunca tinha visto nada, só se ouvia o arrastar no telhado!


Com o passar do tempo além do barulho, passaram a sentir um cheiro muito forte de peixe!
E toda vez era a mesma coisa, barulho no telhado e cheiro de peixe logo depois que a coisa passava...


Foi, então, que resolveram ficar de tocaia para ver o que era aquilo.
E na determinada época, na lua certa, do mês certo eles esperaram...

Se esconderam perto da casa e, em silêncio, observaram e o que eles viram foi assustador............................................................


Saiu de dentro do mato, no pé-do-morro, se arrastando sentindo o rio.
Quando a caseira viu aquilo se arrepiou e até fez o sinal da cruz!

Era uma cobra imensa... Saia do mato e se arrastava, lentamente, por cima da casa.


Apesar de assustadora, ela jamais atacou alguém.

Eles descobriram que aquela era a rota de caça da cobra, que já o usava muito antes da casa ser construída ali.

Alguns dias depois, lá voltava a cobra.
Voltava da caça, pelo mesmo caminho sentido morro acima, de volta para casa...


E era bonita de se ver...
Uma cobra velha, uma cobra enorme, uma cobra que cheirava à peixe!

Por muito tempo eles a viram por lá. 
Sempre na mesma época, no mesmo mês, na mesma lua.


Até que parou...

Não se sabe se mudou de rota ou se morreu, mas por muito tempo passou por cima daquela casa...



Quem me contou esta história foi o Rogério, antigo pescador de Iguape.
Ele me disse que tem tanta história pra contar que está até pensando em escrever um livro!


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O cerco

Na canoa esculpida em um único tronco, o pescador rema para chegar ao cerco. No percurso, além da certeza de encontrar os peixes, carrega consigo a satisfação de ver sua armadilha funcionar mais uma vez...


"Na época da tainha a coisa fica boa por aqui.
Quer dizer, fica boa pra quem tem vontade de 'trabaiá' né?

Todo dia de manhãzinha eu pego meu barco e vou conferir o que tem no cerco. 
Eu fico muito satisfeito quando minha armadilha funciona, porque não é fácil. Dá um trabalho danado pra construir e ela só dura três meses, depois apodrece tudo!"


Aos 66 anos, Francisco mantém viva a arte da pesca de cerco-fixo, e garante o sustento de sua família com esta técnica, há muitos anos.

"Mas tem ano que não tenho tanta sorte assim.
Faço a armadilha e não pego nada!

E fazer o cerco é um trabalho duro: tem que arrumar bambu, depois montar o cerco dentro do rio, amarrar tudo e não dá pra fazer sozinho, tenho que arrumar alguém pra me ajudar... E aí já viu né?"



"Montar o cerco não é problema, o problema é montar um cerco que pegue peixe! (risos)

Todo ano eu monto e todo ano eu aprendo alguma coisa diferente na montagem.
Ano passado foi duro: montei o cerco, gastei mais de R$ 100,00 só de fio e não tive sorte.

Não deu peixe e o trabalho foi perdido!"


O cerco é simples de entender: ele é todo feito de bambu, madeira e arame.

"A gente amarra tudo formando um tipo de curral e monta na 'bera' do mangue.
Aí, quando o peixe vem comer no mangue encontra essa parede que a gente chama de 'espia'. Ela vem de lá da margem até o curral e, quando o peixe tenta desviar, ele não consegue e é obrigado a desviar... Só que quando ele segue pelo espia não consegue achar a saída e acaba entrando na armadilha."


"Depois que ele entrou lá não tem como sair mais. O peixe circula procurando por onde sair, mas a armadilha tem um formato que faz com que ele volte pra dentro dela de novo.

Depois que tá lá é só passar a rede e pegar o que tiver lá dentro. Digo o que tiver porque se encontra de tudo no cerco!"


Com muitos anos de experiência na arte da pesca artesanal, José explica a importância do cerco para conservação e continuação das espécies.

"Depois de preso, o peixe, fica dentro da água até a gente ir tirar ele de lá e se o peixe for muito pequeno ou não 'prestá' pra vender ou comer a gente devolve pro rio."


Quando perguntei que tipo de espécies eles já capturaram no cerco, em meio à risos e gargalhadas, ouvi dizer que já encontraram lontra, jacaré e até boto cinza... Mas isso já é outra história!


E quem me contou esta e muitas outras histórias, ali na beira da praia, foi o Sr. Francisco e o Sr. José moradores de Iguape e pescadores desde que se entendem por gente.




quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O relógio

Eu não sei porque as pessoas duvidam das histórias de pescador...


Veja bem, se eu contar ninguém acredita, mas aconteceu com meu pai!

Ele foi pescar e, lá na beira do rio, tirou o relógio e pendurou no galho de uma árvore que ficava ali perto...


Terminou a pescaria no finalzinho da tarde e foi embora.
Só em casa, no outro dia, foi que se lembrou que esqueceu o relógio na árvore, mas já era tarde. Ele estava em casa, há quilômetros de distância do rio...


Foi só depois de vinte anos que meu pai voltou a pescar lá.
Estava tranquilo, concentrado na sua pescaria, quando começou a ouvir: tic-tac, tic-tac, tic-tac...


Procurou, procurou e encontrou...
Lá no alto da árvore, pendurado em um galho, o relógio que havia esquecido lá há vinte anos.


É verdade!
Foi meu pai que me contou...


E quem me contou esta história foi o Alex, que é filho do Seu Adelino. 

O Alex mora em Iguape e vive da pesca até hoje, diz que o Mar Pequeno já não é farto como antes, mas é o que ele sabe fazer!